Falar sobre doação de órgãos ainda em vida pode ser decisivo para que o desejo de uma pessoa seja respeitado em um momento de perda. No Setembro Verde, mês de conscientização sobre o tema, o Hospital de Clínicas Ijuí (HCI) chama atenção para a importância de levar essa conversa para dentro de casa e esclarecer dúvidas que ainda cercam o processo.
Em 2026, a Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) do HCI abriu nove protocolos de doação de órgãos. Todos os pacientes apresentavam condições para serem potenciais doadores, sem contraindicações, mas somente quatro famílias autorizaram a doação.
Para a enfermeira gestora da UTI Adulto do HCI e coordenadora da e-DOT, Deise Piccoli Steinke, o número mostra que ainda há espaço para avançar na conscientização. “Se a família não souber do real desejo do doador, a família não vai doar. Então, as pessoas precisam falar sobre o assunto. Quanto mais a gente falar, mais as pessoas vão falar”, destaca.
Entre as quatro captações de múltiplos órgãos realizadas pelo HCI neste ano, duas incluíram o coração. O procedimento exige uma logística especialmente ágil, já que o órgão precisa ser transplantado em um intervalo curto de tempo. Segundo Deise, a distância de Ijuí em relação às equipes transplantadoras, que geralmente se deslocam de Porto Alegre, além das condições climáticas e da necessidade de compatibilidade entre doador e receptor, tornam a operação ainda mais desafiadora.
“É um processo muito delicado. O coração tem um tempo muito pequeno para ser transplantado no receptor, de somente quatro horas. Além disso, precisa haver compatibilidade, inclusive de tamanho”, explica a enfermeira. Para quem aguarda esse tipo de transplante, ressalta Deise, a doação representa uma possibilidade decisiva de tratamento.
Da identificação à doação
A abertura de um protocolo de morte encefálica não significa, por si só, que haverá doação. O diagnóstico depende de uma série de avaliações e testes realizados por profissionais habilitados, além de exame complementar que confirme a ausência de atividade cerebral. Somente após a confirmação da morte encefálica e a validação das etapas pela Central de Transplantes é realizada a entrevista com a família.
É nesse momento que o acolhimento ganha ainda mais importância. A e-DOT conta com profissionais capacitados para realizar a entrevista familiar, respeitando o luto e apresentando a possibilidade da doação sem qualquer tipo de pressão.
“Nós não buscamos convencer a família, mas fazer com que ela entenda a importância da doação. Oferecemos uma nova oportunidade e, se a família aceitar, começa todo um novo processo para avaliar as condições dos órgãos e viabilizar a captação”, afirma a coordenadora da e-DOT.
Depois da autorização, são realizados exames laboratoriais e de imagem para avaliar os órgãos e identificar possíveis receptores. O potencial doador permanece na UTI, com os órgãos sendo preservados até a chegada das equipes responsáveis pela captação. Todo o processo é acompanhado pela e-DOT e orientado pela Central de Transplantes.
“Durante um protocolo, tempo é vida. É uma corrida contra o tempo”, resume Deise. A equipe também acompanha e presta suporte à família até a conclusão de todo o processo.
Conversa ajuda a combater mitos
Entre os motivos que ainda dificultam a autorização familiar estão o desconhecimento sobre a vontade da pessoa que morreu e mitos relacionados à retirada dos órgãos. Há famílias que temem, por exemplo, que a doação impeça a realização do velório ou provoque alterações no corpo.
Deise esclarece que o corpo é entregue à família em condições normais para as despedidas e que todo o processo de doação segue protocolos rigorosos, com documentação, acompanhamento das equipes e controle da Central de Transplantes.
No HCI, a doação de órgãos e córneas pode beneficiar até oito pessoas, dependendo das condições clínicas do doador e da existência de receptores compatíveis. Em instituições que também realizam a captação de outros tecidos, o número de beneficiados pode chegar a 25.
Ao longo do ano, e especialmente durante o Setembro Verde, a e-DOT promove ações de conscientização dentro e fora do hospital. A intenção é estimular que o assunto faça parte das conversas cotidianas e que as famílias conheçam a vontade de seus integrantes.
“Converse com sua família, deixe claro seu desejo de ser ou não um doador e incentive essa conversa nos seus meios sociais. Nós nunca sabemos quando podemos nos tornar um receptor ou um doador. E a chance de precisarmos de um órgão é muito maior do que a de nos tornarmos um doador. Pense sobre isso e fale com a sua família”, reforça Deise.
Histórico do HCI
O trabalho vem sendo fortalecido nos últimos anos. Em 2023, o HCI registrou sete protocolos e duas captações de múltiplos órgãos. Em 2024, foram oito protocolos e cinco captações; em 2025, dez protocolos e três captações; e, em 2026, até o momento, nove protocolos e quatro captações.
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